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Ao nos aproximarmos do dia da vovó, ou dos avós, como popularmente conhecemos, me pus a pensar sobre a importância desses membros para a estruturação e continuidade das famílias.
Comecei, na verdade, pensando nos papéis que minhas avós desempenharam em minha vida e a refletir sobre o ofício de uma delas, a Maria de Lourdes, minha avó paterna, a qual era costureira.
Ao ficar viúva, ela com pouco mais de trinta anos de idade, veio a sustentar seus cinco filhos alinhavando tecidos, costurando trajes, como, por costume, se adquiriam roupas em sua época.
Minha outra avó, a Judith, tricotava e fazia crochê com perfeição, produzindo cortinas, cobertas de cama e roupas de bebê. As últimas, inclusive, eram doadas ao hospital de sua cidade, a fim de aquecer crianças nascidas em famílias desprovidas de condições a oferecê-las um enxoval.
Faço toda essa introdução, pois descobri, após muitos anos de formação e atuação profissional, que nossos ofícios e habilidades não se distanciam tanto assim. Realmente, eu não tenho talentos manuais, não sei costurar, tricotar ou sequer pregar um botão. Mas sinto que minha profissão: a Psicologia, e mais ainda a Psicanálise, carregam em si esse grande desafio - o de tecer histórias.
Nós, analistas, somos grandes costureiros de sonhos, alinhamos os fios soltos das histórias dos pacientes, juntamos retalhos para cobrir espaços vazios, tecendo significados às faltas, às ausências, às lacunas da existência humana.
Para isso, necessitamos dessa habilidade artística de criarmos representações a partir do que recebemos, dos retalhos, dos fios soltos, na busca de facilitar o processo de integração do sujeito que nos busca, muitas vezes “aos pedaços”.
Além disso, trabalhamos com a escuta atenta, sensível e capaz de promover uma sensação de acolhimento, alívio e descanso. Novamente me vem à mente as conversas com minhas avós, das muitas histórias que me contaram, repetidas vezes, sobre suas vidas, a origem da família, suas dores e amores.
Eu adorava ouvir, pois sentia que elas eram parte de mim, de quem eu era e que um dia eu precisaria dessas memórias para dar sentido a quem sou. Penso esse ser o papel mais rico dos avós: contar histórias - transmitir às gerações seguintes os legados, as memórias, os valores e costumes de uma família.
Os avós oferecem às famílias um espaço diferente daquele ocupado pelos pais: um tempo menos apressado, em que as crianças podem experimentar outra forma de cuidado, de escuta e de convivência.
Ouvir histórias dos avós é viajar por um tempo não vivido, sonhar com como foi o passado e, ao mesmo tempo, encontrar algo tão valioso de si próprio: suas origens, suas raízes.
Através dessas narrativas, os avós não apenas preservam lembranças; eles ajudam as crianças a compreender que fazem parte de uma história que começou antes delas e continuará depois. É nesse sentimento de pertença que encontramos um dos alicerces da formação da identidade.
Compartilho, por meio deste texto, o desejo de que as crianças de hoje ainda possam desfrutar do privilégio de ouvir histórias, conversar e sonhar com seus avós. Que, nesse encontro entre lembranças e imaginação, possam tecer um amanhã carregado de afeto, pertencimento e esperança para as próximas gerações.
*A opinião expressa neste artigo é de inteira responsabilidade da fonte.
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◾️Fonte: Vívian D’Avila Campodonico | Psicóloga | Especialista em Psicologia Clínica |
Psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos.
⌨️ Edição de título: Dario Carvalho | Rádio Charrua
📸 Imagem: Vívian D’Avila Campodonico | Arquivo Pessoal