Sua opinião pouco importa, nem haverá sensibilização por sua condição. Este é o sentimento com que terminou a 48ª Expointer.
Mas me explico.
Quando passávamos pela pandemia, tivemos uma feira sem abraços e muitas dúvidas. Após, passamos por uma explosão de preços de comodities como arroz e soja que organizaram “a casa”, posteriormente passamos por quatro crises climáticas que amplificaram o endividamento do produtor rural e chegamos nesta 48ª Expointer com cenário político incerto, comodities com preços abaixo do custo de produção, juros elevados e um gigantesco problema de endividamento no campo.
Por mais explícito que o problema financeiro do produtor rural seja, ainda há a necessidade de consentimento do poder público para anuir os episódios e assim ajudar.
Porém, não é o que parece que vai acontecer.
A solução do problema está no PL 5122/2023 aprovado na Câmara de Deputados por 346 votos favoráveis contra 93 votos, este sim resolve o problema, mas está parado no Senado Federal.
Apresentado foram 12 bilhões em uma MP com menos da metade do valor de 27 bilhões reivindicados. Ajuda, mas não resolve.
O produtor rural diuturnamente procura formas de ser eficiente, ser produtivo, ter custos baixos, aplicar as mais modernas técnicas que a ciência demonstra que trarão resultados.
Bastava percorrer o Parque Assis Brasil e participar dos mais diversos encontros técnicos realizados, por exemplo, pelo Instituto Desenvolve Pecuária (IDEPEC), pelas Associações de Raças que reuniram o público e demonstraram como realizar a seleção genética e fenotípica dos animais, bastava percorrer os estandes das empresas e verificar a disposição de ensinar que tinham com o produtor e até mesmo com apenas os apreciadores da produção primária.
Bastava verificar os encontros realizados entre Associação de Produtores e Indústria frigorífica para comprovar o estreitamento dos elos da produção e, desta forma, cada um no seu setor ser mais eficiente na busca de melhor remuneração e aproveitamento dos seus produtos.
Estes sim, se uniram para resolver o problema e pelo que vi está bem encaminhado.
Mas me detive muito a reparar nos sentimentos dos participantes da Expointer.
De um lado do parque, junto aos animais, uma mistura de trabalho bem feito com esperança de um mercado com todos os indicativos de ser promissor.
Do outro lado, nas máquinas, estandes vazios, muitas dúvidas de um mercado incerto que resultou numa retração de mais de 50% nas vendas segundo os dados oficiais da feira.
No âmbito político ficou claro que vivemos entre narrativas.
Escutei discursos entusiasmados que enalteceram as atuações do Governo Federal para com a produção primária, de um Plano Safra amplo e cada ano maior a ponto de financiar safras recordes que farão com que a comida fique cada vez mais barata.
Escutei no discurso do Presidente da Conab, Edgar Preto, que graças ao esforço do Governo Federal de fomentar o plantio de arroz no Brasil hoje temos um quilo com preço justo ao consumidor.
Porém o que temos na realidade, na poeira do campo, no dentro da porteira, são preços que não pagam custos de produção, são incertezas jurídicas ambientais e sociais que desanimam investimentos, são atuações governamentais como os leilões que de nada ajudam e empurram o problema para mais tarde, um Plano Safra onde sua maior parte é de recursos livres, a juros de mercado e cada vez mais de difícil acesso e, que fique claro, que caso o produtor rural sofra com uma quebra de colheita ocasionada pelo clima, ele terá direito à renegociação, isto está escrito no Manual do Crédito Rural e o que vemos é um real desprezo com a classe produtora como expliquei acima quanto a reivindicação dos produtores.
Um desprezo com 23 produtores rurais que tiraram suas vidas, pois não sabiam mais como quitar suas dívidas.
É satisfatório conhecer o campo, conhecer as histórias de vidas lapidadas pelo sol, pelo trabalho, baseada na aplicação de ciência eficiente e sustentável, preservacionista e difusora de conhecimento mundial. Somos os exemplos a sermos seguidos, somos a base financeira de sustentação de um País onde a ingerência é regra.
Recados foram dados e aqui resumo:
Dependa menos de financiamentos, diminua a área plantada, diversifique sua produção, não é momento para investimentos, treine pessoas, melhore sua mão de obra, se una em associação de produtores para ampliar sua força e o sinal mais importante da feira, cuide de sua saúde mental. Se não seguirmos estas indicações ao final seguiremos sentido que os interesses governistas não nos inclui e que não interessa nossa opinião, muito menos se sensibilizaram por nossa condição.
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◾️Fonte: Bernardo Fagundes / Apresentador do Charrua Rural
⌨️ Editado por Dario Carvalho | dario@radiocharrua.com.br
📸 Imagem: Bernardo Fagundes / Arquivo Pessoal