Sem considerar eventuais promoções, uma viagem de ônibus de Porto Alegre até Florianópolis, capital catarinense, custa no mínimo R$ 71,86. Isso equivale a R$ 0,16 por quilômetro rodado. Já se o destino for Santa Maria, no centro do Estado, o usuário paga R$ 0,46 a cada km. Ou seja, quase três vezes mais. Mas por que isso acontece
Existem dois motivos: o modelo de outorga e a demanda por certos destinos ou, então, o fluxo de passageiros. É o que apontam entidades como a Associação Rio-Grandense de Transporte Intermunicipal (RTI) e a Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati).
Para operar em roteiros interestaduais, as empresas precisam demonstrar capacidade técnica e financeira para que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) autorize a atividade no trecho de interesse. Já nas rotas intermunicipais o poder público estabelece o operador por meio de licitações de concorrência.
Às vezes você tem duas, três empresas que operam no mesmo eixo. Acaba tendo uma concorrência maior e aí isso, claro, pressiona preço. Mas também você tem uma liberdade tarifária, que te dá a condição de fazer passagem na antecipação com promoção, passagem para determinados nichos da população com promoção detalha a conselheira titular da Abrati, Letícia Pineschi Kitagawa.
Nas linhas intermunicipais os preços são tabelados pelo Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer/RS). O cálculo é feito com base no custo total da operação dividido pelo número de passageiros pagantes. A quantidade de viajantes é estabelecida por meio dos Boletins de Operação de Passageiros, que são enviados pelas empresas ao órgão.
Esse modelo de outorga não traz flexibilidade para os valores, o que inviabiliza eventuais promoções. Por outro lado, ele garante que linhas com baixo fluxo de passageiros sigam funcionando, mesmo com pouco retorno financeiro para as empresas.
Essa é a grande proteção e missão do Estado, não permitir que linhas sumam. Por isso, talvez, ele demore um pouco mais para tomar uma decisão de mudar o modelo de outorga. É preciso um estudo para isso. As pessoas não podem ficar sem transporte. A garantia do transporte é constitucional comenta Letícia.
O que dizem os passageiros
A diferença nos valores causa estranheza nos passageiros que frequentam a rodoviária de Porto Alegre.
Me surpreende o valor das passagens porque eu consigo comparar. Por exemplo, às vezes viajar para Florianópolis é mais barato do que viajar para Pelotas, que é aqui dentro do Estado. Isso me causa estranheza, porque os valores de passagem, teoricamente, são calculados por quilômetro. Então, eu não posso viajar o dobro de quilômetros e pagar mais barato do que viajar aqui (no RS) 200 quilômetros revela Simone Rosales, 56 anos, que viaja semanalmente para Pelotas, no sul do Estado.
O catarinense Guilherme Lima Silva, 25 anos, que frequenta a Universidade Federal de Rio Grande (Furg) em Santa Vitória do Palmar, atravessa o RS de Norte a Sul nos períodos de férias para voltar à casa dos pais em Blumenau. Já acostumado com o trajeto intermunicipal e o interestadual, ele fala sobre a diferença entre os trechos.
Eu percebo que o ônibus é bem mais vazio no começo, mais ou menos até Pelotas ou Camaquã, onde começa a encher. Já quando eu saio de Porto Alegre para Santa Catarina não é assim, já sai cheio. E às vezes para Florianópolis ou Blumenau você consegue achar um preço muito mais em conta, se comprar com antecedência ou se comprar em uma companhia que às vezes tem alguma promoção relata o estudante.
Mudanças na forma de viajar
A RTI destaca que o perfil do usuário mudou ao longo dos anos devido ao crescimento das cidades, desenvolvimento tecnológico da sociedade e aumento no número de carros particulares. Muitas viagens intermunicipais deixaram de ser necessárias, já que situações que só eram resolvidas presencialmente, como ir a um fórum específico, por exemplo, passaram a ser feitas de forma virtual.
A queda no número de passageiros se intensificou depois da pandemia de covid-19. A restrição de circulação dos ônibus favoreceu a ampliação e o fortalecimento de caronas ou transporte amador.
Apesar de aguardar em um banco na rodoviária, Simone estava esperando para viajar até Pelotas de carona em um carro particular. Ela revela que, desde que iniciou o curso de Conservação e Restauro na Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), tem optado por esse tipo de transporte.
Eu faço pela economia, porque eu viajo toda semana pra Pelotas e de ônibus (o custo) é exatamente o dobro do que de carona. A tendência do ônibus é ser mais confortável, mas existem caronas muito confortáveis. Eu procuro bastante conta Simone.
Ao contrário de Simone, Silva conta que prefere viajar de ônibus devido ao custo-benefício, pois o embarque e desembarque é no mesmo local, a disponibilidade de horários e a possibilidade de levar um maior número de bagagens.
A conselheira da Abrati fala que o transporte amador, ou carona remunerada, tem prejudicado a receita das empresas. Ela conta que, com a queda da demanda, o preço das passagens acaba subindo para compensar a perda.
Letícia reconhece que as caronas se tornaram fonte de renda para muitas pessoas, mas reforça que a prática é ilegal. Ela também destaca que o nível de segurança pode ser precário nesse tipo de transporte, diferente dos ônibus onde as empresas precisam realizar manutenções regulares e exigem diversos treinamentos dos motoristas, além de exames toxicológicos e de alcoolemia.
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Fonte: Beatriz Coan / GZH
Editado pela Central Charrua de Notícias
Imagem: Ilustração CCN
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