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Rua dos Andradas, 1.925. Em frente ao endereço que o mundo inteiro, de alguma forma, conheceu e que Santa Maria não esquece, Cibele Garlet Facco, 48 anos, só consegue voltar porque o cenário está diferente.
Depois de 13 anos, o prédio da boate Kiss não existe mais. Ali, as ruínas pouco a pouco dão lugar ao projeto de um memorial em homenagem às 242 pessoas que morreram no maior incêndio da história gaúcha — e um dos piores já registrados no Brasil — naquele 27 de janeiro de 2013.
O respeito ao passado e a materialização da memória propõem um alerta para o futuro. É para isso que Cibele, mãe de Luana Facco Ferreira, que perdeu a vida na tragédia aos 19 anos, tem se dedicado. Formada em Direito, atualmente, a mãe da jovem faz doutorado e estuda o tema. Ela também integra o grupo de pesquisas que criou o Memorial Virtual Kiss. O projeto digital é desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que decretou o dia 27 de janeiro como Dia de Memória às Vítimas do Incêndio da Boate Kiss.
— Meu legado é ir em busca de informações, sem distorções, somente a verdade. Tanto o memorial físico quanto o virtual são uma espécie de refúgio de lembranças e o último local onde tudo se entrelaça e se imortaliza — defende Cibele.
Sob sol ou chuva, por uma década, uma tenda permanente na principal praça da cidade foi o reduto oficial de homenagens às vítimas da boate. A estrutura foi montada em abril de 2013 para que os familiares pudessem fazer vigílias todos os meses, sempre no dia 27. Com fotos das 242 pessoas que perderam a vida, o local se tornou um ponto simbólico. Em 14 de julho de 2023, uma ação entre a prefeitura e a AVTSM marcou a retirada da tenda.
Cibele frequentava o espaço. Era a opção que restava, já que até hoje ela desvia da Rua dos Andradas, onde ficava o imóvel da boate. Com exceção das homenagens feitas às vítimas todos os janeiros, a única vez em que parou em frente à boate foi em 10 de julho de 2024, data em que o letreiro com o nome da Kiss foi retirado, em um ato que marcou a demolição do prédio.
— Foi pela minha filha. Tudo que envolve a boate Kiss é muito doloroso e não seria diferente em 10 de julho de 2024. O dia amanheceu chuvoso, muito frio. O palco montado para a solenidade não foi usado, e a cerimônia teve de ser feita no estacionamento do Carrefour, local que abrigou muitos corpos retirados da boate, a maioria sem vida — lembra.
A discussão em torno da construção de um memorial dividia opiniões e provocava questioamentos, inclusive a Cibele, que hoje é entusiasta do projeto:
— Uma questão nevrálgica me angustiava: destruir o local que mantém vivas e latentes as discussões sobre os erros cometidos por muitos entes públicos? Qual a possibilidade pedagógica da construção da memória? O que poderá trazer efetivamente à sociedade?
“A resposta é que é preciso homenagear esses 242 jovens que perderam suas vidas, e o caminho é o memorial.” (CIBELE GARLET FACCO
Mãe de Luana Facco Ferreira).
Os serviços de construção do memorial foram paralisados em 28 de fevereiro de 2025 após a necessidade de adequações nos projetos. A ordem de reinício foi assinada pela prefeitura e pela empresa INFA Incorporadora em dezembro. A previsão é de que a edificação seja concluída até junho deste ano. O prazo inicial de entrega era janeiro de 2025.
A pausa no serviço, conforme explica, Flávio Silva, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), se deu por conta de medidas adicionais de segurança que precisaram ser incluídas. É o caso da construção de um corredor lateral — conhecido como corredor enclausurado — com ventilação mecânica forçada, garantindo a segunda rota de fuga exigida pelas normativas do Corpo de Bombeiros Militar.
— É uma segunda saída de emergência. Além de todo o papel da memória, da história dos nossos filhos, o memorial tem de ser um marco à prevenção, temos que dar exemplo. A obra parou e agora está ganhando ritmo, sendo feita a concretagem. O memorial pronto vai recuperar um pouco do nosso ânimo e a nossa confiança para seguir em frente — conclui Flávio.
O valor original da obra é R$ 4,87 milhões. Os recursos são do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL), do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), que, em maio de 2023, oficializou o repasse de R$ 4 milhões, com contrapartida do Executivo municipal (R$ 870 mil).
As atualizações nos projetos técnicos foram peças de um aditivo contratual no valor de R$ 705 mil, que, com a autorização do MPRS, será custeado com o próprio rendimento dos recursos do FRBL. Desta forma, o valor atualizado da obra passou a R$ 5,57 milhões.
O projeto vencedor do memorial é do arquiteto paulista Felipe Zene Motta, que propôs a construção de um jardim central e de um único pavimento que seja de fácil construção e manutenção. O memorial terá uma área de 383,65 metros quadrados. Serão três salas:
um auditório com capacidade para 142 pessoas
uma sala multiuso
uma sala que será a sede da AVTSM
O jardim circular no centro terá 242 pilares de madeira em volta. Eles conterão o nome de cada vítima e um suporte de flores.
O projeto foi escolhido em um concurso, realizado em 2018. Ao todo, foram 121 propostas inscritas de 14 Estados brasileiros.
— Como arquiteto criador, gostaria muito de ver o memorial pronto, mas isso se torna menor frente ao desejo dos familiares. Afinal, é deles, para eles que a obra irá oferecer algum conforto e uma perspectiva menos dura. Esperamos, em 27 de janeiro do ano que vem, ter uma celebração bem bonita com esse memorial pronto — diz Flipe Zene Motta.
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📍Fonte: Pâmela Rubin Matge / GZH
⌨️ Edição: Dario Carvalho / Rádio Charrua
📷 Foto: Alan Orlando / Especial