Por Fred Soares
Jornalista
Comentarista Rádio Tupi RJ
Pesquisador de Carnaval
Cronista esportivo
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O Carnaval não é apenas uma festa. Para quem vive e respira o samba, ele é um chamado, uma pulsação que ecoa dentro do peito, um estado de espírito que transcende o tempo e o espaço. O desfile pode até ter dia e hora marcados, mas a emoção que ele desperta é eterna.
Embora os espetáculos do Rio de Janeiro e de São Paulo sejam os grandes templos dessa celebração, há um pedaço especial do Brasil onde a folia acontece de uma forma diferente, intensa e arrebatadora. Em Uruguaiana, no extremo oeste do Rio Grande do Sul, o samba ganha vida com uma energia única, que me envolveu de tal maneira que, desde 2007, essa cidade se tornou parte da minha história.
Cheguei a Uruguaiana para uma missão profissional: coordenar os jurados do desfile. Mas o que começou como um desafio logo se transformou em um laço profundo. Não demorou para que eu percebesse que aquele Carnaval não era apenas um evento, e sim uma paixão que envolvia cada detalhe, cada nota de um surdo marcando o compasso, cada lágrima de emoção escorrendo nos rostos que cruzavam a avenida.
Um solo fértil para o samba florescer
Uruguaiana, cravada na fronteira com a Argentina, pode parecer, à primeira vista, um destino inesperado para um Carnaval desse porte. Mas basta sentir a vibração da cidade durante a folia para entender que aqui o samba encontrou um chão fértil para crescer.
Na Avenida Presidente Vargas, onde os desfiles acontecem, a grandiosidade do espetáculo se revela a cada carro alegórico, a cada evolução de comissão de frente, a cada canto apaixonado da arquibancada. E há uma particularidade especial: a presença marcante de artistas do Rio de Janeiro, que trazem para esse palco um intercâmbio fascinante entre a tradição carioca e a alma gaúcha. O resultado? Um espetáculo que se arrepia, emociona, envolve.
Mas Uruguaiana não se resume à avenida. Durante os dias de festa, a cidade respira Carnaval. É samba na mesa do bar, é gente comentando os desfiles na calçada, é tamborim soando nas esquinas. A cidade se veste de Carnaval e o transforma em uma experiência viva, pulsante e irresistível.
Minha primeira vez – e todas as outras
Quando cheguei a Uruguaiana pela primeira vez, em 2007, sabia que tinha um trabalho de responsabilidade pela frente. Coordenar os jurados exigia método, técnica e organização. Mas, acima de tudo, exigia sensibilidade. Sensibilidade para entender que, mais do que avaliar notas e quesitos, estávamos lidando com sonhos, com histórias de vida, com pessoas que dedicaram meses – às vezes anos – para aquele momento único na avenida.
Com o passar do tempo, meu papel mudou. Passei a cobrir o evento como jornalista, mergulhando nos bastidores, ouvindo histórias de quem faz esse espetáculo acontecer. Vi de perto o brilho nos olhos dos carnavalescos ao verem suas criações ganharem vida. Senti o arrepio dos intérpretes que, com a voz embargada de emoção, davam tudo de si a cada samba entoado. Acompanhei o esforço incansável das comunidades, que transformam suor e dedicação em enredos inesquecíveis.
Uruguaiana me ensinou que o Carnaval é feito por gente. Gente que sonha, que luta, que sente.
O que faz esse Carnaval ser tão especial
Se há algo que diferencia o Carnaval de Uruguaiana de qualquer outro, é a sua alma. Aqui, a festa não é só uma reprodução do que acontece na Sapucaí. Ela tem vida própria, ela emociona por sua intensidade, por sua entrega.
As escolas locais, como Os Rouxinóis e Unidos da Cova da Onça, mostram um nível técnico impressionante, provando que o samba é, sim, um fenômeno nacional. O intercâmbio com os artistas do Rio só enriquece essa troca, tornando o desfile uma experiência grandiosa e única.
E há algo ainda mais forte: a hospitalidade. Uruguaiana recebe seus visitantes de braços abertos, como quem acolhe um velho amigo. Aqui, não somos apenas espectadores; somos parte do Carnaval, parte da história, parte do coração que faz essa festa pulsar.
O chamado que sempre me traz de volta
Ano após ano, volto a Uruguaiana com o coração acelerado, como quem reencontra um amor inesquecível. A cada edição, me deixo levar pela batida da bateria, pelo brilho dos refletores sobre a avenida, pela explosão de alegria que só quem já viveu essa experiência entende.
Porque esse Carnaval não é apenas uma data no calendário. Ele é um sentimento que me acompanha. Um chamado que nunca se cala.
E enquanto houver samba no mundo, sei que estarei aqui. Voltando. Vivendo. Sentindo.
Uruguaiana sempre será parte de mim.
*A opinião expressa neste artigo é de inteira responsabilidade do autor e/ou assessoria de imprensa.
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◾️Fonte: Fred Soares / Jornalista
⌨️ Editado por Dario Carvalho | Rádio Charrua
📸 Imagem: Fred Soares / Arquivo Pessoal